
Escrevi este conto inspirado pelo
www.dramadiario.com lá eles escolhem um tema por semana e cada pessoa posta um conto por dia. Eu gosto muito de ler os textos que passam por lá.
Acho que o meu ficou meio grandinho, talvez devesse ser um pouco mais sintético, mas... aí vai. Gostaria muito de saber a opinião de alguém que leia o texto, valeu :D
27/08/09
Quatro e Trinta e Cinco.
MARCOS: Eu lembro que recebi a visita da Ana, ela veio falar algo muito importante. Eu me lembro muito bem da hora que eu acordei. Me lembro exatamente: quatro e trinta e cinco. Quatro e trinta e cinco do dia 07 de Agosto, foi o dia em que eu nasci de novo. Sempre que penso na Ana, penso nesse minuto específico. Por algum motivo, essa hora ficou gravada na minha mente, quatro e trinta e cinco.
Um quarto de hospital com dois leitos. No meio do quarto uma cortina verde separando as duas camas. O leito mais próximo da porta é ocupado por MARCOS. Ele está ligado a alguns aparelhos que monitoram seu estado e com duas garrafas de soro penduradas num gancho alto ligadas a seu braço.
Marcos está com a fisionomia de muito cansaço, uma expressão de desconforto. Ao lado de seu leito há uma cadeira de plástico branca. ANA entra no quarto com uma grande mochila de viagem nas costas, deposita a mochila no chão e se senta na cadeira.
ANA: Marcos...
Ana segura na mão de Marcos, a expressão de dor dele se suaviza um pouco, mas ele não acorda.
ANA: Marcos... Eu... Eu precisava muito falar com você, antes...
Ana está à beira das lágrimas. Sua voz embargada fica baixinha, impossível de entender.
Ana chora com o rosto escondido entre as mãos. Marcos muda de posição na cama, Ana se assusta e engole rapidamente o choro, olhos arregalados olhando desconfiados para o rosto de Marcos.
ANA: Eu não queria fazer isso... Juro que não queria, pelo menos não desse jeito... Mas o Dui disse que eu devia fazer, que seria sacanagem com vc, com nós dois... Se pelo menos as coisas fossem diferentes...
MARCOS: Depois daquela noite, você não me deve mais nada Ana.
ANA: Como não? Como você tem coragem de me dizer isso? Hem??
MARCOS: Você sabe muito bem o que aconteceu, não me obrigue a falar sobre aquela noite.
ANA: Como você tem coragem de falar assim comigo? Hem?? Nós somos namorados... Pelo menos a gente era, até... antes de...
MARCOS: Você estava chorando? (Secando uma lágrima do rosto dela)
ANA: Estava. Eu vim aqui pra te dizer uma coisa, fiquei lá fora um tempão treinando como eu ia te dizer isso, mas agora simplesmente não estou conseguindo.
MARCOS: Eu já imagino o que seja.
ANA: Pois é. Eu não sei como dizer, mas se eu não fizer isso, não vou conseguir seguir em frente, entende? Eu preciso seguir em frente, preciso fazer alguma coisa da minha vida.
MARCOS: O que você quer me dizer Ana? Você me conhece, sabe que pode me dizer o que quiser.
ANA: Eu... Ah como eu fui idiota... Se pelo menos eu tivesse te impedido naquela noite... Nada disso teria acontecido...
MARCOS: Você sabe que a culpa não foi sua. Mesmo que tentasse me impedir eu não ia ligar. Eu e o Dui sempre dirigimos bêbados e nunca aconteceu nada... Pelo menos até aquela vez.
ANA: Merda... (volta a chorar escondendo o rosto nas mãos)
MARCOS: E o Dui? Ana, o que aconteceu com o Dui, eu não me lembro de ver ele...
(Silêncio) Ana seca o rosto com um lenço retirado do bolso.
MARCOS: O que aconteceu com ele Ana? Ele está bem? Eu me lembro que ele estava sem cinto, que saiu voando pelo pára-brisa... (Marcos leva a mão à boca, fica assustado, quase transtornado) Estou vendo tudo de novo... Estávamos muito rápido, aquele maldito velho tinha que atravessar a rua bem na nossa frente... eu ainda tentei frear... como fui idiota.. se não tivesse freado o carro não tinha perdido o controle e... O Dui tava do meu lado, você estava atrás... Eu tava de cinto, sempre usava o cinto, o Dui nunca usava.. Por isso que ele saiu voando pelo retrovisor quando a gente bateu naquele poste (olha para o nada, com horror enquanto revive a cena)
Ana encara Marcos e segura em sua mão.
ANA: O Dui ficou mal mesmo naquele dia, mas acabou tendo uma ótima recuperação. Ficou internado só por um dia e já recebeu alta. Você só ficou com esse roxo enorme na cara, onde o volante pegou, eu fiquei desacordada por uns 4 dias, aqui mesmo nessa cama ao lado da sua. Depois que eu acordei, te fiz companhia todos os dias. O Dui ficou puto com você. Não quis te ver, depois que teve alta, foi visitar os pais dele na casa de campo.
MARCOS: Não sabia que ele tinha pais.
ANA: Pois é...
MARCOS: Ana, eu sei que você esteve aqui comigo todo esse tempo, me apoiando, obrigado. Eu vou ficar bom e voltar pra vocẽ, e nós vamos ser felizes de novo.
ANA: Não vamos não, Marcos... É isso que eu queria falar com você: Eu estava conversando com o médico agora e ele me disse que você está em coma profundo, que depois de algumas tentativas de cirurgias malsucedidas e outras coisas que eu não entendi, que as chances de você acordar são poucas, quase nenhuma...
Ana larga a mão de Marcos e limpa o rosto com o lenço. Ela não consegue encarar Marcos, mas toma fôlego e continua:
ANA: E mesmo que você saia do coma, será como um vegetal, sem vida, sem falar, sem sentir... Eu não aguento essa vida mais. Eu sei que você não está realmente falando comigo. Isso é só a minha imaginação, a gente se conhecia tanto que eu até já sei o que você iria me dizer. Na verdade estou ouvindo apenas o que eu queria que você me dissesse, que A culpa não foi minha, que você sabe o tanto que eu sofri do seu lado, que você um dia ainda vai voltar pra mim...
MARCOS: Mas eu vou acordar, tenho certeza de que vou acordar e vamos voltar ao que era antes!!! Estou te dizendo!
ANA: Tá vendo, eu já sabia que você ia dizer isso, antes mesmo de você falar.
Marcos vira o rosto para o outro lado, frustrado, sem querer encarar a verdade. Fecha os olhos para esconder as lágrimas.
ANA: O Dui diz que eu vou acabar enlouquecendo se continuar passando o dia inteiro aqui. Seus pais vão continuar tomando conta de você, mas eu não posso mais. O Dui comprou duas passagens, nós vamos para um lugar onde não terei notícias suas, vamos tentar começar de novo. Eu só vim aqui prá te dizer isso: que está tudo terminado entre nós, que eu não tenho mágoa de você pelo que aconteceu.
Ana dá um beijo suave na testa de Marcos e deixa o lenço branco ao lado do corpo dele. Marcos está imóvel. Ana pega a mochila no chão e põe nas costas. Quando Ana está prestes a abrir a porta para sair, Marcos se vira bruscamente e dispara:
MARCOS: Mas eu vou ficar bom! Tenho certeza que vou acordar, posso sentir, estou ficando cada vez melhor...
Ana fica imóvel, com o braço estendido. Marcos sente que ela está decidida, que não há mais volta agora.
MARCOS: Eu tenho certeza que vou ficar bom. Ainda existe uma chance... Por-favor, não vá embora, me dê uma segunda chance, eu tenho certeza que vou acordar...
ANA: Não vai não. Nunca mais vamos nos ver... Adeus Marcos.
Ana empurra a porta e sai, porém a porta não se mexe, Ana atravessa a porta, como se a mesma não estivesse ali. Marcos está deitado, na mesma posição que estava desde o começo, com uma expressão de dor profunda. Ana cruza o corredor do hospital ignorando o andar apressado dos médicos e enfermeiras. Ela atravessa a porta do corredor que dá para o salão de espera, também passando através da porta, como se ela fosse apenas uma imagem imaterial. No salão de espera há um jovem a esperando, também com uma mochila nas costas. Sorridentes os dois se encaminham para uma porta de vidro por onde entra a luz do sol lá fora. A luz fica cada vez mais forte, até que a cena fica impossível de se ver.
No quarto de Marcos, um alarme começa a tocar, uma enfermeira entra no quarto às pressas, e se dirige ao outro leito, que está oculto pela cortina verde.
ENFERMEIRA1: Ela está em parada, não consigo sentir o pulso
Marcos está ainda na mesma posição, mas com uma expressão de ansiedade, de pânico. Outra enfermeira entra no quarto, com uma máquina de emergência.
ENFERMEIRA2: Afaste-se.
Ouve-se o som do choque elétrico, Marcos se move de um lado para o outro como se estivesse tendo uma convulsão.
ENFERMEIRA1: Tenta de novo!
ENFERMEIRA2: Afaste-se!
Ouve-se outro choque elétrico. Marcos levanta o peito como se estivesse tentando respirar profundamente.
Um médico entra apressado, ainda terminando de vestir seu jaleco branco, sem olhar para a cama de Marcos, se dirigindo imediatamente à cama na parede oposta, que está oculta pela cortina de pano verde, onde estão as enfermeiras.
MÉDICO: Não adianta, ela está sem respiração e pulso há muito tempo. Não podemos fazer mais nada por ela, acabou.
Marcos abre os olhos e se senta bruscamente na cama, com o lenço branco nas mãos.
MÉDICO: Hora da morte, quatro e trinta e cinco.
Marcos olha para a porta, que está terminando de fechar.
MARCOS: Adeus Ana.